Trabalho proposto pelo Professor Jailson Almeida - Ainda sofrerá algumas mudanças
O SERTÃO LINGÜÍSTICO DE ROSA
Lúcia Maria Ferreira Santos*
RESUMO
O texto visa apresentar a revalorização e recriação da linguagem contida na obra “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo em que pretende possibilitar contato com uma riqueza lingüística que transforma a linguagem sertaneja em pura arte, mesclando neologismos que proporcionam uma gama de novos vocábulos e aforismos pautados em falas ou expressões sertanejas que partem de um campo regional para uma linguagem universal, ao mesmo tempo em que suscita uma comparação com os aforismos criados por Platão.
PALAVRAS-CHAVE: Linguagem; Neologismo; Aforismo; Platão
INTRODUÇÃO
Considerado um marco da literatura “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é uma obra com elementos inesgotáveis, que pode ser lido com vários sentidos e diferentes objetivos: romance de aventura, relato do sertão brasileiro, invenção de um espaço quase mítico, uma chamada à realidade e ao mesmo tempo fuga dessa realidade, reflexão sobre o destino do homem, apresentação de expressões de angústia metafísica, movimento constante entre o real e o imaginário, mas, principalmente, como um originalíssimo dicionário de aforismos e neologismos.
A linguagem de “Grande Sertão: Veredas” cria outra realidade, a palavra na narração de Riobaldo ganha uma espécie transcendência,
________________________
*Graduada em Letras pela UNEB, DCHT, CAMPUS XVI - IRECÊ BA - PROESP. Pós-graduanda em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e suas Literaturas
transforma vocábulos em algo concreto que ganha estruturas verbais
autônomas e geradoras de si mesmas, durante a leitura é possível perceber que a dimensão temática é menos importante do que a dimensão lingüística, que apresenta um paradoxo, ao mesmo tempo em que é regionalista é também universal, não permitindo que o leitor faça uma leitura de forma passiva, visto que o mesmo apresenta um texto insólito, com ritmo e musicalidade a fim de dar maior grandeza ao discurso, surgindo construções carregadas de ênfase, vocábulos expressivos, novos ou antigos, inventados ou já existentes, pertencentes a língua popular ou culta, além de apresentar múltiplas conotações que requer do leitor um alto grau de concentração para associar a linguagem roseana “floreada” de neologismos e aforismos aos vocábulos já apreendidos ou para uma constante reinvenção. E, segundo (Cândido, 1957) “Há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado, cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício: inventar.”
1. Aforismo
1.1- Conceito
Aforismo (ou aforisma) (do latim aphorismu) é uma sentença que em poucas palavras compreende um princípio moral. Segundo Tarley Mota “aforismo significa explicar aforismo em poucas palavras”.
Segundo o dicionário de filosofia aforismo é uma proposição que exprime de maneira sucinta uma verdade, uma regra ou uma máxima concernente à vida prática, que com seus preceitos torna o homem feliz, ou menos infeliz.
1.2- Contribuições dos Aforismos
Os aforismos podem reverter certas estratégias lexicais, sintáticas e semânticas, contribuindo para a expressividade da mensagem, apresentado assim, um código de prescrição social para interpretação da realidade, este sempre foi um recurso utilizado por autores célebres como: Willian Shakespeare, Voltaire, Tarsila do Amaral, Rousseau, Nietzsche e Platão o qual pode ser considerado o pai dos aforismos, pois o mesmo utilizou-os e procurou conservá-los em seu significado de máxima ou regra para dirigir a atividade prática do homem.
1.3- Aforismos de Platão a Rosa
De acordo com Platão, a compreensão do real é feita a partir da distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível ou das idéias. Assim sendo, também ressalta Aranha (p.85, 2002) que: “... uma coisa é aquilo que é e não outra.“ Além do que, para ele o mundo das idéias é regido pela ciência e é por meio de um movimento dialético que se chega à ordem da verdade, ou seja, sempre mostrando que um dos termos é aparência e ilusão e o outro é verdadeiro ou essência.
Segundo Platão não existe oposição entre homem e natureza, ao mesmo tempo em que afirma que um é parte integrante do outro e feito dos mesmos elementos. E para explicar essa relação homem e natureza usa diversos aforismos, tal como Rosa utilizou em sua obra.
1.4- Correlação de Aforismos Platônicos e Roseanos
Aforismo de Platão contido na obra Banquete
Aforismo de Rosa contido na obra Grande Sertão: Veredas
“O amor não é todo ele belo e digno de ser louvado” (p. 12)
“Amor é isso: O que bem quer e faz mal” (p. 566)
“A festins de bravos, bravos vão livremente” (p. 5)
“O senhor sabe: sertão onde manda quem é forte, com as astúcias”(p35)
“Amor não comete nem sofre injustiças” (p. 27)
“Perdoar é sempre o certo e o justo” (p. 92)
“A língua jurou, mas meu peito não” (p. 29)
“Viver é muito perigoso” (p. 32); “Deus é paciência” (p. 33)
“a visão do pensamento
começa a enxergar com agudeza quando a dos olhos tende a perder sua força”. (p. 53)
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver” (p. 76)
2. Neologismo
2.1- Conceito
O termo neologismo é um composto de neo (novo) e de logos (palavra) e, surgiu no francês do século XVIII originariamente significando certa afetação na maneira de dizer alguma coisa. Os neologismos são o resultado do processo de neologia, ou seja, são definidos como palavras de criação recente ou emprestadas de outra língua, ou acepções novas de palavras já existentes e que estão em fase de aceitação pelos falantes de uma dada comunidade lingüística. São ligados a todas as inovações nos diversos setores da atividade humana.
Como a língua é dinâmica e se renova constantemente, muitas palavras tornam-se arcaicas e deixam de ser usadas, outras mudam de significado ou adquirem novas acepções e a criação de neologismos é um dos instrumentos de renovação da língua. Os neologismos podem ser criados na própria língua ou importado de uma língua estrangeira. Há neologismos de cunho popular ou literário, e na citada obra literária o autor faz uso constante dessa ferramenta. Deste modo, reforça Alves (2002, p.72) que: “a criação neológica faz parte da história das línguas e constitui uma evidência inequívoca de vitalidade, essencial para suprir as necessidades e as condições de comunicação do idioma.”
Portanto, é válido ressaltar que Guimarães Rosa usou esse recurso para enriquecimento de sua obra ao mesmo tempo em que procurou passar o enredo de forma poética e agradável.
2.2- Neologismos contidos em Grande Sertão: Veredas.
O neologismo é um dos instrumentos de renovação da língua, por isso Rosa foi feliz em sua escolha, uma vez que, muitos dos neologismos presentes na obra em estudo foram incorporados ao léxico e ganhou força na linguagem falada. Sobretudo, vale destacar alguns neologismos presentes em Grande Sertão: Veredas como, por exemplo: (refalei, soflagrante, mamolência, descômodo, desdeixei, abobada, turvação, sovigia, desfechar, coraçãoados, desinquietação, esguedelhando, sobejidão, sobreveja, encarniçado, jagunçamas, ratragagem, escaravatar, animalada, desapartamos, palavreado, retentêia, mormaceira, dificultoso... (ps. 165, 168, 171, 208, 211, 215, 225, 229, 235, 242, 246, 259, 318, 323, 331, 355, 367, 377, 391, 409, 443).
3. Diversidade Lingüística e Cultural literária
3.1- Enredo
O Princípio fundamental do desenrolar do enredo se dar basicamente na linguagem, não é por acaso que o autor inicia o romance com o vocábulo “nonada”, que quer dizer: “nada, coisa alguma, o nada”. Seguida por essa vertente, o mesmo inova e revela uma visão global da existência de múltiplos elementos presentes no enredo da narrativa tais como: O materialismo, o religioso, a natureza, o bem e o mal, o divino e o demoníaco. Ao mesmo tempo em que narra lutas entre jagunços, vinganças, relação ambígua entre Riobaldo e Diadorim, chama a atenção do leitor para uma interpretação constitutiva dessa “nonada”.
Em síntese o que se observa é uma obra literária com fortes elementos da cultura popular e sertaneja que abarca um leque com vários elementos lingüísticos que ganha diferentes dimensões e significados durante a sua apresentação.
3.2- Tempo e Espaço
O tempo e o espaço em “Grande Sertão: Veredas” apresenta uma ruptura com a hora cronológica e com o espaço geográfico convencional, em vez de seguir uma seqüência linear o tempo “volteia” seguindo o fluxo da memória do narrado.
No entanto, a trama ocorre no sertão mineiro (norte), sul da Bahia e Goiás, que, ganha um caráter universal devido apresentar inúmeras divagações e reflexões. Além disso, vale ressaltar conforme Rosa (2001, p.32) que: “O sertão é o mundo”.
3.3- Personagens
Riobaldo, narrador-personagem e protagonista de “Grande Sertão: Veredas” busca em suas memórias e reflexões negar a existência do demônio, ao mesmo tempo em que conclui que o mal é uma característica intrínseca ao ser. Percebe-se que o mesmo sente dificuldade em narrar os fatos e sempre reafirmando o que diz usando a própria linguagem.
A personagem em discussão realiza três travessias: A primeira é exterior, quando vive em um sertão real, onde ele conhece a natureza, os bichos e as reações dos seus companheiros de “jagunçagem”, a segunda é interior, quando ele afirma que “o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente”, e é nesse momento que a personagem vive o seu maior conflito e suas noções são difusas e o mesmo não consegue diferenciar o bem e o mal. Ambição e ódio, que paradoxalmente surge a explosão de um amor impossível.
A terceira e última é uma travessia mítica (Riobaldo-jagunço) para uma travessia real (Riobaldo-fazendeiro). Diadorim é o jagunço Reinaldo, integrante do Bando de Joca Ramiro, durante o desenrolar do romance esconde sua real identidade (Maria Diadorim), travestindo-se de homem e deixando sua identidade à mostra somente após a sua morte, personagem que se mostra sensível ao contemplar uma bela paisagem, porém, capaz de matar a sangue frio.
Durante todo o enredo representa o amor impossível e proibido, causando grande conflito em Riobaldo como demonstra essa fala... “mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas?” (Rosa, op. cit. p. 593).
CONCLUSÃO
Conclui-se que a linguagem apresentada na obra de Rosa é bastante mítica, já que nos faz um convite a um universo de símbolos, do imaginário, de elementos amorfos e nos faz viajar por um mundo onde o significado está naquilo que se inventa – e Rosa fabrica um mundo de novos vocábulos, para entender e para expressar o universo lingüístico presente em “Grande Sertão: Veredas”. Nada mais significativo nesse contexto do que uma fala do próprio Guimarães Rosa a respeito da linguagem:
A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.
O Romance constrói uma nova dimensão para o ambiente e as pessoas do sertão, apresenta um amor proibido e seus conflitos psicológicos, faz referência a falta de comunicação entre as classes sociais, mostra uma realidade transformada e reinventada, mas, seu aspecto mais marcante e significativo é a diversidade lingüística, visto que o mesmo apresenta constantemente frases compostas de aforismos e neologismos, ao mesmo tempo em que recorre a vocábulos construídos com prefixos e sufixos, percebe-se também que a obra referenda citações de diversos textos literários, religiosos e filosóficos, ao mesmo tempo em que suscita uma oralidade aparentada ao discurso platônico.
REFERÊNCIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1988.
CASTRO, Nei Leandro de. Universo e Vocabulário do Grande Sertão. 20ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia: São Paulo: Ática, 2002.
COUTINHO, I. L. Pontos de gramática histórica. 5ª ed. Rio de Janeiro: Liv. Acadêmica, 1962.
DUBOIS, J. e col. Dicionário de lingüística (trad.). São Paulo: Ed. Cultrix, 1998.
FERREIR, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1986.
FIORIN, Luís José e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto- Leitura e redação. 10ª ed. São Paulo: Ática, 1995.
RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: Dos primeiros Cronistas aos últimos Românticos. São Paulo: Edusp, 2002.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
O SERTÃO LINGÜÍSTICO DE ROSA
Lúcia Maria Ferreira Santos*
RESUMO
O texto visa apresentar a revalorização e recriação da linguagem contida na obra “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo em que pretende possibilitar contato com uma riqueza lingüística que transforma a linguagem sertaneja em pura arte, mesclando neologismos que proporcionam uma gama de novos vocábulos e aforismos pautados em falas ou expressões sertanejas que partem de um campo regional para uma linguagem universal, ao mesmo tempo em que suscita uma comparação com os aforismos criados por Platão.
PALAVRAS-CHAVE: Linguagem; Neologismo; Aforismo; Platão
INTRODUÇÃO
Considerado um marco da literatura “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é uma obra com elementos inesgotáveis, que pode ser lido com vários sentidos e diferentes objetivos: romance de aventura, relato do sertão brasileiro, invenção de um espaço quase mítico, uma chamada à realidade e ao mesmo tempo fuga dessa realidade, reflexão sobre o destino do homem, apresentação de expressões de angústia metafísica, movimento constante entre o real e o imaginário, mas, principalmente, como um originalíssimo dicionário de aforismos e neologismos.
A linguagem de “Grande Sertão: Veredas” cria outra realidade, a palavra na narração de Riobaldo ganha uma espécie transcendência,
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*Graduada em Letras pela UNEB, DCHT, CAMPUS XVI - IRECÊ BA - PROESP. Pós-graduanda em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e suas Literaturas
transforma vocábulos em algo concreto que ganha estruturas verbais
autônomas e geradoras de si mesmas, durante a leitura é possível perceber que a dimensão temática é menos importante do que a dimensão lingüística, que apresenta um paradoxo, ao mesmo tempo em que é regionalista é também universal, não permitindo que o leitor faça uma leitura de forma passiva, visto que o mesmo apresenta um texto insólito, com ritmo e musicalidade a fim de dar maior grandeza ao discurso, surgindo construções carregadas de ênfase, vocábulos expressivos, novos ou antigos, inventados ou já existentes, pertencentes a língua popular ou culta, além de apresentar múltiplas conotações que requer do leitor um alto grau de concentração para associar a linguagem roseana “floreada” de neologismos e aforismos aos vocábulos já apreendidos ou para uma constante reinvenção. E, segundo (Cândido, 1957) “Há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado, cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício: inventar.”
1. Aforismo
1.1- Conceito
Aforismo (ou aforisma) (do latim aphorismu) é uma sentença que em poucas palavras compreende um princípio moral. Segundo Tarley Mota “aforismo significa explicar aforismo em poucas palavras”.
Segundo o dicionário de filosofia aforismo é uma proposição que exprime de maneira sucinta uma verdade, uma regra ou uma máxima concernente à vida prática, que com seus preceitos torna o homem feliz, ou menos infeliz.
1.2- Contribuições dos Aforismos
Os aforismos podem reverter certas estratégias lexicais, sintáticas e semânticas, contribuindo para a expressividade da mensagem, apresentado assim, um código de prescrição social para interpretação da realidade, este sempre foi um recurso utilizado por autores célebres como: Willian Shakespeare, Voltaire, Tarsila do Amaral, Rousseau, Nietzsche e Platão o qual pode ser considerado o pai dos aforismos, pois o mesmo utilizou-os e procurou conservá-los em seu significado de máxima ou regra para dirigir a atividade prática do homem.
1.3- Aforismos de Platão a Rosa
De acordo com Platão, a compreensão do real é feita a partir da distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível ou das idéias. Assim sendo, também ressalta Aranha (p.85, 2002) que: “... uma coisa é aquilo que é e não outra.“ Além do que, para ele o mundo das idéias é regido pela ciência e é por meio de um movimento dialético que se chega à ordem da verdade, ou seja, sempre mostrando que um dos termos é aparência e ilusão e o outro é verdadeiro ou essência.
Segundo Platão não existe oposição entre homem e natureza, ao mesmo tempo em que afirma que um é parte integrante do outro e feito dos mesmos elementos. E para explicar essa relação homem e natureza usa diversos aforismos, tal como Rosa utilizou em sua obra.
1.4- Correlação de Aforismos Platônicos e Roseanos
Aforismo de Platão contido na obra Banquete
Aforismo de Rosa contido na obra Grande Sertão: Veredas
“O amor não é todo ele belo e digno de ser louvado” (p. 12)
“Amor é isso: O que bem quer e faz mal” (p. 566)
“A festins de bravos, bravos vão livremente” (p. 5)
“O senhor sabe: sertão onde manda quem é forte, com as astúcias”(p35)
“Amor não comete nem sofre injustiças” (p. 27)
“Perdoar é sempre o certo e o justo” (p. 92)
“A língua jurou, mas meu peito não” (p. 29)
“Viver é muito perigoso” (p. 32); “Deus é paciência” (p. 33)
“a visão do pensamento
começa a enxergar com agudeza quando a dos olhos tende a perder sua força”. (p. 53)
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver” (p. 76)
2. Neologismo
2.1- Conceito
O termo neologismo é um composto de neo (novo) e de logos (palavra) e, surgiu no francês do século XVIII originariamente significando certa afetação na maneira de dizer alguma coisa. Os neologismos são o resultado do processo de neologia, ou seja, são definidos como palavras de criação recente ou emprestadas de outra língua, ou acepções novas de palavras já existentes e que estão em fase de aceitação pelos falantes de uma dada comunidade lingüística. São ligados a todas as inovações nos diversos setores da atividade humana.
Como a língua é dinâmica e se renova constantemente, muitas palavras tornam-se arcaicas e deixam de ser usadas, outras mudam de significado ou adquirem novas acepções e a criação de neologismos é um dos instrumentos de renovação da língua. Os neologismos podem ser criados na própria língua ou importado de uma língua estrangeira. Há neologismos de cunho popular ou literário, e na citada obra literária o autor faz uso constante dessa ferramenta. Deste modo, reforça Alves (2002, p.72) que: “a criação neológica faz parte da história das línguas e constitui uma evidência inequívoca de vitalidade, essencial para suprir as necessidades e as condições de comunicação do idioma.”
Portanto, é válido ressaltar que Guimarães Rosa usou esse recurso para enriquecimento de sua obra ao mesmo tempo em que procurou passar o enredo de forma poética e agradável.
2.2- Neologismos contidos em Grande Sertão: Veredas.
O neologismo é um dos instrumentos de renovação da língua, por isso Rosa foi feliz em sua escolha, uma vez que, muitos dos neologismos presentes na obra em estudo foram incorporados ao léxico e ganhou força na linguagem falada. Sobretudo, vale destacar alguns neologismos presentes em Grande Sertão: Veredas como, por exemplo: (refalei, soflagrante, mamolência, descômodo, desdeixei, abobada, turvação, sovigia, desfechar, coraçãoados, desinquietação, esguedelhando, sobejidão, sobreveja, encarniçado, jagunçamas, ratragagem, escaravatar, animalada, desapartamos, palavreado, retentêia, mormaceira, dificultoso... (ps. 165, 168, 171, 208, 211, 215, 225, 229, 235, 242, 246, 259, 318, 323, 331, 355, 367, 377, 391, 409, 443).
3. Diversidade Lingüística e Cultural literária
3.1- Enredo
O Princípio fundamental do desenrolar do enredo se dar basicamente na linguagem, não é por acaso que o autor inicia o romance com o vocábulo “nonada”, que quer dizer: “nada, coisa alguma, o nada”. Seguida por essa vertente, o mesmo inova e revela uma visão global da existência de múltiplos elementos presentes no enredo da narrativa tais como: O materialismo, o religioso, a natureza, o bem e o mal, o divino e o demoníaco. Ao mesmo tempo em que narra lutas entre jagunços, vinganças, relação ambígua entre Riobaldo e Diadorim, chama a atenção do leitor para uma interpretação constitutiva dessa “nonada”.
Em síntese o que se observa é uma obra literária com fortes elementos da cultura popular e sertaneja que abarca um leque com vários elementos lingüísticos que ganha diferentes dimensões e significados durante a sua apresentação.
3.2- Tempo e Espaço
O tempo e o espaço em “Grande Sertão: Veredas” apresenta uma ruptura com a hora cronológica e com o espaço geográfico convencional, em vez de seguir uma seqüência linear o tempo “volteia” seguindo o fluxo da memória do narrado.
No entanto, a trama ocorre no sertão mineiro (norte), sul da Bahia e Goiás, que, ganha um caráter universal devido apresentar inúmeras divagações e reflexões. Além disso, vale ressaltar conforme Rosa (2001, p.32) que: “O sertão é o mundo”.
3.3- Personagens
Riobaldo, narrador-personagem e protagonista de “Grande Sertão: Veredas” busca em suas memórias e reflexões negar a existência do demônio, ao mesmo tempo em que conclui que o mal é uma característica intrínseca ao ser. Percebe-se que o mesmo sente dificuldade em narrar os fatos e sempre reafirmando o que diz usando a própria linguagem.
A personagem em discussão realiza três travessias: A primeira é exterior, quando vive em um sertão real, onde ele conhece a natureza, os bichos e as reações dos seus companheiros de “jagunçagem”, a segunda é interior, quando ele afirma que “o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente”, e é nesse momento que a personagem vive o seu maior conflito e suas noções são difusas e o mesmo não consegue diferenciar o bem e o mal. Ambição e ódio, que paradoxalmente surge a explosão de um amor impossível.
A terceira e última é uma travessia mítica (Riobaldo-jagunço) para uma travessia real (Riobaldo-fazendeiro). Diadorim é o jagunço Reinaldo, integrante do Bando de Joca Ramiro, durante o desenrolar do romance esconde sua real identidade (Maria Diadorim), travestindo-se de homem e deixando sua identidade à mostra somente após a sua morte, personagem que se mostra sensível ao contemplar uma bela paisagem, porém, capaz de matar a sangue frio.
Durante todo o enredo representa o amor impossível e proibido, causando grande conflito em Riobaldo como demonstra essa fala... “mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas?” (Rosa, op. cit. p. 593).
CONCLUSÃO
Conclui-se que a linguagem apresentada na obra de Rosa é bastante mítica, já que nos faz um convite a um universo de símbolos, do imaginário, de elementos amorfos e nos faz viajar por um mundo onde o significado está naquilo que se inventa – e Rosa fabrica um mundo de novos vocábulos, para entender e para expressar o universo lingüístico presente em “Grande Sertão: Veredas”. Nada mais significativo nesse contexto do que uma fala do próprio Guimarães Rosa a respeito da linguagem:
A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.
O Romance constrói uma nova dimensão para o ambiente e as pessoas do sertão, apresenta um amor proibido e seus conflitos psicológicos, faz referência a falta de comunicação entre as classes sociais, mostra uma realidade transformada e reinventada, mas, seu aspecto mais marcante e significativo é a diversidade lingüística, visto que o mesmo apresenta constantemente frases compostas de aforismos e neologismos, ao mesmo tempo em que recorre a vocábulos construídos com prefixos e sufixos, percebe-se também que a obra referenda citações de diversos textos literários, religiosos e filosóficos, ao mesmo tempo em que suscita uma oralidade aparentada ao discurso platônico.
REFERÊNCIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1988.
CASTRO, Nei Leandro de. Universo e Vocabulário do Grande Sertão. 20ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia: São Paulo: Ática, 2002.
COUTINHO, I. L. Pontos de gramática histórica. 5ª ed. Rio de Janeiro: Liv. Acadêmica, 1962.
DUBOIS, J. e col. Dicionário de lingüística (trad.). São Paulo: Ed. Cultrix, 1998.
FERREIR, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1986.
FIORIN, Luís José e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto- Leitura e redação. 10ª ed. São Paulo: Ática, 1995.
RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: Dos primeiros Cronistas aos últimos Românticos. São Paulo: Edusp, 2002.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.














